sábado, 31 de julho de 2010

8 Pages

Her epiphany. She had her epiphany. An announcement to the end. It all was clear as she blinked her eyes. She loved him in soul and body. However, she knew the end was near. Epiphany counts the steps to the end of a story. At first love is excitement and energy. Lovers are able to have sex for uncountable hours just like animals in season. There is time to name the stars in the sky, dry drops of oceans, select every flake of snow. There is time to run going nowhere, to sing louder than Luciano Pavarotti, to write and read a whole bible of love messages. And then, the excitement was gone and the energy has vanished. She is tired. Tired of loving. Loving is hard. It is a pathogenic agent. It stills body vitality. Time says it is almost twenty years since his eyes met her smile. She is not a girl anymore. Told her the mirror. Time punishes bodies and lovers. “Let’s spend the night together?” I’m not in the mood. Sex only at holidays. No time to see stars, drops in oceans or flakes of snow. No time to run, to sing, to write or read. He counts the pages of her letters now: “Eight pages – front and back!” One of her friends dyed today. Another announcement to the end. Maybe Morrison was right. The end is our only friend. Something no one can escape from.





Image by *lostbooks on DeviantArt

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Mais doida que mulher


É verdade que aquela não era uma noite comum apesar de dia de semana. Encontro de pessoas para comemorar meu aniversário. Um grupo de mulheres se junta. Estranho ficar de expectadora. O local e a ocasião, senti que de pouco importava. Elas poderiam estar na liquidação de um shopping, no corredor de um supermercado, na esquina da rua em que moram, no salão de beleza, na reunião de pais e mestres da escola ou naquele cursinho básico de inglês para viagens. O tema da conversa seria o mesmo. Ainda tenho minhas dúvidas mas acredito que elas estavam trocando experiências sobre o ser mulher. Talvez até uma competição às escuras para saber quem era mais mulher que a outra. Eu ouvia aquela conversa estupefata. No começo ainda ri. Foi engraçado ouvir minha amiga falando no quanto comia enquanto estava grávida. Assim que elas se juntaram, o assunto já era sabido. Uma delas estava grávida. Gosto de conversas de grávidas e de mães embora não tenha filhos e nem nunca tenha ficado grávida. Mas aquela conversa me chamou a atenção. Não apenas porque peripécias de sobrinhos não contam. Sobrinhos não são filhos! Aquela conversa me chamou a atenção mesmo por eu sair dali com o meu certificado de doida em mãos e a certeza de que ser mulher é apenas um elemento figurativo na minha certidão de nascimento. Começou a minha amiga:

- Você está sentindo alguma coisa?

- Não. Apenas certa azia de vez em quando. Respondeu a grávida.

- Ah! Mas isso é normal. Depois passa. Toda mulher tem isso.

Como mulher não fica calada, a conversa desembestou. Às vezes, falavam todas ao mesmo tempo.

- Eu entrei na sala de parto conversando. Falei a cirurgia toda. Não tive meu filho de parto normal. Claro que não! Sentir aquelas dores horríveis! E a minha médica foi ma-ra-vi-lho-sa. Tudo estava pronto a minha espera. Ouvi que ela estava conversando com a sua assistente sobre o encontro amoroso da enfermeira enquanto me cortava como quem corta um peru de natal. Aí eu entrei logo na conversa. Conversei muito e não senti nada de dores que dizem serem causadas pela anestesia.

- Ah, não! Eu senti. Odiei tudo. Passei muito mal nos primeiros dias. Aliás, passei mal a minha gravidez inteira. Não quero mais engravidar. Vou ficar só com essa aí (apontando para a menininha que brincava em volta).

Houve um leve estranhamento com aquele anúncio. E a mulher logo continuou:

- Ah! Quando essa aqui tinha três meses (a menininha em cena outra vez) esse daqui (apontando para o marido que conversava, talvez, sobre futebol com o marido de outra lá) fez logo vasectomia porque eu disse logo! Não fico mais grávida.

Ela fez uma cara feia ao terminar de falar. Alguém sugeriu adoção. Certamente por acreditar que adotar uma criança é, também, uma questão de colaborar com o meio ambiente. Então a mulher se manifesta novamente.

- É pode ser... Agora eu só engravido de novo se eu vier a me casar com outra pessoa.

Espantei-me! Depois entendi. Naquele casamento ela já tem o seu sustento e uma forma de segurar o marido. No entanto, como na vida não há certezas, ela haveria de fazer o seu papel de mulher mais uma vez caso fosse preciso. Dar um filho ao marido, posar de boa esposa e mãe quando alguém estiver olhando e assegurar mais uma vez o seu ganha pão. Além de poder anunciar “eu tenho filho com ele”. Parece que ter filho com um homem dá o direito a mulher de marcar o homem. Assim como quem marca boi com ferro quente. A conversa ainda seguiu e eu lá. Assistindo a tudo. E devorando a bandeja de salgados que estava ao meu lado. Não tenho problemas para engordar e não faço exercícios físicos. Pelo menos na hora em que a conversa girou em torno da boa forma, eu pude exibir meu corpo magro e em forma – a não ser por uma barriguinha que começa a ficar saliente. Besteira diante daquelas jacas falantes. Voltando ao tema central da conversa, me atrevi a participar. Afinal, eu estava ali e era meu aniversário. Uma delas, já com filhos crescidos, dizia ter coragem para engravidar mil vezes. Só não queria era levar a criançada pra casa. Ela poderia fazer dinheiro alugando a barriga. Isso é proibido no Brasil? Não sei! Mas quem precisaria saber que ela alugava a sua barriga? A barriga é dela! Sim. Essa mesma. Quando ela falou que o seu filho, agora com vinte anos, quando bebê, só queria dormir na cama com ela e embaixo do sovaco dela, eu encontrei minha deixa. Gritei:

- Engraçado! A minha sobrinha de um ano e meio só quer dormir assim. Debaixo de sovaco do pai.

Não sei o que causou mais espanto. Se o fato de eu me atrever a entrar na conversa falando da minha sobrinha (sobrinho não é filho) ou se o fato da minha sobrinha preferir dormir com o pai. Certamente foi o primeiro fato. A conversa se dava entre mulheres, esposas, mães, gravidezes e filhos. O que eu fazia ali? Bom, era meu aniversário mas que importância isso tinha diante de tão grandioso assunto? Saí por um instante. Já tinha comido um pedaço enorme de bolo delicioso. Nem todas comeram. Há-ha! Fui ver a lua que se escondia entre nuvens de chuva. Pensei um pouco e ri muito. Não sou mulher. Sou doida. Não dependo do meu marido, decidi não ter filhos, não gosto de estar rodeada de mulheres, muito menos de fofocar sobre a loira que se mudou para a casa amarela, sobre quantas vezes a chefe do meu marido fez Botox ou sobre como certas mulheres dizem criar seus filhos. Irrita-me ouvir que quem sabe mais sobre crianças é quem tem filhos ou quem gerou filhos, disseram. Curioso é ouvi-las considerando, mesmo que rapidamente, a possibilidade de adoção. Ora! Uma falou e todas concordaram. Só engravidando para saber como é ter filhos. Então, quem adota não é mãe. Mãe é quem atira filho pela janela, mãe é quem abandona o filho no frio dentro de um saco de lixo, mãe é quem interrompe uma gravidez por achar, simplesmente, que não é hora pra isso ou que não pode engordar. Todas essas mães engravidaram. Geraram ou começaram a gerar uma vida. São mulheres, são mães. Eu entendi. Entendi também que, definitivamente, não serei mãe nem mulher. Serei doida.




Image by Nenimo on DeviantArt

quarta-feira, 14 de julho de 2010

De volta à vida

O título deste texto é uma tradução livre do título de uma canção do Pink Floyd, lançada no álbum The Division Bell, de 1994. Trata-se de uma das melhores canções do disco e um trecho em especial traduz a força dos dizeres que nela se apresentam e se escondem. O trecho diz que chegou o momento de matar o passado e voltar à vida. Não acredito muito em matar o passado, mas acredito em trazer dele apenas o que pode servir de lição para o futuro. Depois de retiradas e aprendidas as lições, rasgo o passado em pedaços miúdos e jogo-o no lixo junto com as barras de chocolate que tanto enojam o poeta da tabacaria.

Por mais que a realidade me force a ficar aqui, eu sempre dou um jeito de sair da vida por alguns longos instantes. Deixo o mundo todo explodir ao meu redor e me tranco nos sonhos e ilusões do meu castelo de menino que quis ser jogador de futebol. Faço isso porque – como disse em outra coluna – sou um romântico imbecil e incorrigível. Certamente mais um triste anacronismo no mundo novo da imagem e das telas em terceira dimensão.

Mas gosto dos meus retornos à vida. Não porque eles venham com a esperança piegas dos anúncios de televisão, mas porque volto com a certeza de que sei qual é o meu lugar neste mundo, ainda que o tenha percebido por conta de milhões de relações intertextuais que me fizeram ser quem sou. Ao menos eu sei que essas relações existem – mesmo que este conhecimento não tenha valor algum. E falando em certezas, não as tenho. Nem mesmo a consoada me parece inevitável.

Volto com o sentimento de que sou o mesmo jovem ingênuo que acreditou ser capaz de transpor muros de insensatez e falsidade para cravar sua espada no coração de todos os cânones e doutrinas que transformam este planeta num lugar tão fantasticamente desprezível. Um jovem ingênuo, ainda que os fios brancos digam o contrário.


Voltei à vida.


Um grande abraço a todos e haja saúde.


(Imagem: DeviantArt)

domingo, 11 de julho de 2010

Ato de contrição em fim de tarde





Confesso a Deus Todo Poderoso minha mania de combinar cores e tipos de pegadores ao colocar roupas para secar — conseqüência da loucura desvairada que me acompanha.

Confesso a Deus Todo Poderoso que não mais me comovo tanto quando perco um paciente em minhas mãos — anos de profissão nos leva de um humano-profissional a um mero cumpridor de obrigações.

Confesso a Deus Todo Poderoso fingir orgasmos ao receber meu marido dentro de mim — seus olhares por cima da cerca fizeram com que eu me perdesse em mim.

Confesso a Deus Todo Poderoso cobiçar meu vizinho do lado — seus olhares incansáveis fizeram com que eu voltasse a me enxergar.
Confesso a Deus Todo Poderoso desejar os filhos de minha amiga — os meus são todos imprestáveis.

Confesso a Deus Todo Poderoso pensar em viajar pela Europa durante o sermão dominical — a ladainha daquele padre já não me toca mais.

Confesso a Deus Todo Poderoso ter dito a minha mãe que seu manjar de coco estava divino — meu pai sempre foi melhor na cozinha.

Confesso a Deus Todo Poderoso teimar em colocar meus pensamentos no papel — já soube de Professora Doutora que para ser escritor é preciso que se tenha o reconhecimento dos "pares". Duvido que os pares de sapato que eu tenha sejam suficientes para isso.

Confesso a Deus Todo Poderoso continuar a levar a vida na valsa — se tenho que viver que seja pelo riso e não pela dor.
Confesso a Deus Todo Poderoso ter pecado por palavras, atos e omissões.