sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Sem conexão


Eu só queria
Um abraço
Um amasso
Um espaço.

Eu só queria
Um lugar
Um alguém
Em quem coubesse
O tanto de mim
Que sobrou.



Imagem: Erin Cone.

domingo, 28 de julho de 2013

À (in)sustentabilidade das relações.

Se o mundo dá voltas, 
em que estação eu devo descer?


Voltei a escrever longas cartas para ninguém. O inverno nem é frio, mas, eu sinto calafrios. Agarrar um lápis traz calor as mãos. Todos saíram pela porta dos fundos e eu fiquei. Fiquei porque meu contorcionismo é falho. Eu não caibo em todo lugar. Nem todo lugar me cabe. Você, também, é um lugar. Lugar onde eu deveria encontrar abrigo, proteção, amor e cuidado sempre que precisasse. Eu preciso. Sou precisa. Essas coisas fazem de nós humanos vulneráveis, eu sei. Eu deveria ser alienígena. Ou um mutante.  

Cena faltando.

Não sou eu que dou abrigo? Que dou proteção? Que amo? Que cuido? Sim... Só que, agora, estou quebrada. E a consciência das pessoas não desapegou ainda da filosofia do quebrou, joga fora! Faz-se tempo de reciclagem. Acontece que reciclagem dá trabalho. É preciso manter aquilo que vai ser reciclado. Manter é proteger, é cuidar, é amar. Amar é, segundo os caprichos de Eros, convencional, belo e perfeito. Portanto, amar ao que não lhe convém, amar ao velho e amar ao torto é, no mínimo, desafiar o Cupido. Voltamos à reciclagem. O que dizer da reciclagem de pessoas? Pessoas são chatas, antissociais, imperfeitas. - Pois têm vontades e sentimentos próprios - Pessoas não pedem perdão, pessoas não perdoam. Espere... Talvez, eu deva descer em qualquer estação e seguir. Ou parar. Parar e só olhar o vai e vem de pessoas em trem cujo caminho é uma linha reta.



Imagem em: Deviantart. 

sábado, 20 de julho de 2013

Ao passar das coisas e da gente.

A gente passa
Passa o carteiro
Passa a lesma
Na calçada.

A gente passa
Passa o carro
Passa o trem
Na mesma pressa

A gente passa
Passa o fel
Passa o ferro
Ferindo igual
De Páris a lança

A gente passa
Passa o vento
(Passatempo)
Levando o que
Raiz não tinha.


À arte melodramática.


Imagem: It's all about art.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Por onde passa o sol, a chuva passa.

A gente se perde. Muitas vezes. Mas sempre consegue encontrar o caminho de volta – ou de uma volta. É capacidade inata aos seres viventes. Caminhar é viver. Enquanto a gente caminha, a gente vive. Enquanto a gente vive, a gente atua, disse o Bardo do Avon. Eu atesto, testo. Um passo, outro passo. Uma fala, outra fala. Um cenário, outro cenário. Um terreno, mortos enterrados e eu me enxergo contorcionista. Uma dobra pra cá, outra pra lá. Um quadrado, um triangulo, um círculo. Contorção é acrobacia. Não se vive e não se caminha sem acrobacias. Eu vivo, eu caminho, eu atuo. Em um circo de plateia contada e lona furada – para que passe o sol e a chuva passe – faço da minha parte a parte que me cabe a cada dia. Faça chuva ou faça sol ou que me doa mais ou menos.

“O gato bebe leite,
O rato come queijo
E eu, toco meu trabalho.” *

* Em O Palhaço (2011), direção de Selton Melo.

Foto: Stanislav Odyagailo.