Não é curta a vida. Curto é o nosso viver. Curto é o nosso olhar. O calendário perde seus dias e não enxergamos o que eles trazem e levam de volta. Neste ir e vir de dias que passam despercebidos, não percebemos a nós mesmos. É como se nos perdêssemos, também, por entre esses dias. Em um dia qualquer, sem querer, observei umas ramas de maracujá se arrastando pelo muro de meu quintal, oriundos da casa de uma vizinha que não me dá, sequer, bom dia. Minha reação foi instantânea. Não quero estas ramas invadindo o meu quintal. Embora o aroma da fruta me agrade, não suporto seu sabor. Mas, ignorei as tais ramas, ainda tímidas. Como insisto em voar diante da vida que me chega, os dias continuaram a fugir até que eu parasse, outra vez, em meu quintal. As, não mais tímidas, ramas de maracujá denunciavam minha ausência naquele lugar; denunciavam o que acontecia em minha casa; denunciavam minha cegueira frente a coisas simples; denunciavam minha abstenção diante da vida. O muro de meu quintal estava todo tomado por ramas de maracujá em um estado de vitalidade que não me pertencia. Flores e flores e flores de maracujá enfeitavam o meu quintal. Estática, eu observava as flores que virariam frutos. Retrocedi alguns passos, apanhei outras flores que haviam ficado em meu caminho. Senti o perfume de cada uma delas e resolvi não mais me apartar delas. Hoje, carrego um cesto cheio de flores de todos os tipos e cores.
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10 comentários:
Que texto maravilhoso, gostoso de ler e sentir...
Realmente,Curto é o nosso viver!!!
Lendo seu texto me lembrei de uma música: ♫'...Dia de sol, cheiro de flor, Gosto de mar, amor...♫' (Gal Costa, I think!). Eu li em algum lugar que a flor do maracujá é considerada, segundo o folclore popular nordestino, a flor da paixão porque quando o sangue de Jesus desceu pela madeira, molhou uma planta sem virtude que estava no pé da cruz. Ela então soltou um botão que virou flor e que trazia todos os sinais da crucificação. Ei adorei seu blog, depois volto para ler mais... bjs
Sil, a minha alegria e surpresa foi imensa ao encontrar vc por aqui. Realmente, a lenda sobre a flor do maracujá existe. Mas, não pertence só ao folclore nordestino, não. É mundial, eu diria. Tanto que em inglês maracujá se diz "passion fruit". Sendo esse "paixão" relacionada a paixão e morte de Jesus. Lindo, não?!
Luv you and your baby! (that's a little bit mine too :D )
É a Paixão de Cristo mesmo, mui lindo!!! :D
Menina seu blog é uma maravilha. Irei ler tudinho, hahahaha.... we love you too
...vai ver
esse foi um
jeito verde
e doce de tua
vizinha te
dar um "olá"...
bj
Ah Zelia como é bom ler algo que nos transporta para o aroma das flores como foi a leitura de suas palavras...
Seu dom é especial!
Tenha uma semana abençoada!
Um beijo carinhoso
Voltei. Se é que já fui embora algum dia.
Pois bem... texto cheio de ares existencialistas (o deixar-se fora da própria). É um dos meus temas favoritos. Por isso leio tanto Virginia Woolf. Não que eu esteja comparando seu texto. Mas é isso que busco quando leio: o estranho. Digo estranho porque não é qualquer um que se percebe distante de seu próprio quintal e, após ver as plantas, percebe o tempo passar.
Gostei muito.
Depois releia. Tenho certeza que você vai sentir vontade de dar continuidade à narrativa.
Câmbio.
E adorei o novo layout. :)
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