sábado, 23 de agosto de 2008

entre a lua e a previsão do dia

"Mas não se pode agir assim, a amiga avisou no telefone. Uma pessoa não é um doce que você enjoa, empurra o prato, não quero mais. Tentaria, então, com toda a delicadeza possível, sem decidir propriamente decidiu no meio da tarde — uma tarde morna demais, preguiçosa demais para conter esse verbo veemente: decidir. Como ia dizendo, no meio da tarde lenta demais, escolheu que — se viesse alguma sofreguidão na garganta, e veio — diria qualquer coisa como olha, tenho medo do normal, baby."

(Caio Fernando Abreu)


Hoje decidi que a faxina seria em mim. E olha que não decido nada sem antes ler a previsão do tempo e meu horóscopo. Que posso fazer se acredito em signo? Sou de peixes e nado feito maluca pra chegar ao trabalho e ainda aguento a Dona da Fábrica me dizer que "esse atraso é ridículo". Ela fala assim - ridículo. Odeio o tom de voz. Parece que tem um problema de dicção. Quando a gente não gosta de algo, basta meia palavra pra a coisa toda explodir. E fico no trabalho. Olhando o relógio, olhando minhas unhas e colhendo pensamentos. Faço o típico interrogatório interior. Sou minha própria terapeuta. Sei exatamente como me sinto. Outra coisa. Odeio conselhos. Odeio mesmo. Me afasto como uma linda bolinha de gude. Fugindo e indo solta lá no horizonte. Já imaginou uma bola de gude azul cobalto indo embora? Sou eu. Indo, embora não vá. E hoje decidi tomar conta de mim. Anoto sensações. Estou engraçada. Sempre uso jeans. Sempre jeans. Minha cara de hippie dessa nova temporada. Hippie agora é vestir moda alternativa. Então visto. Se bem que, às vezes, o outro lado da lua me ataca e me visto como uma aeromoça. Cabelo todo arrumadinho. Mas quando me olho no espelho sei que não sou. A gente se conhece. É uma fato. Eu me conheço e não faço trato, nem traio, nem abstraio, nem calo a boca. Mas sou silenciosa. Um piano fechado e também digo que amo pianos, músicas e voz de mulher cantando. Eu canto. Pouco, mas canto. Quando bate a vontade, o violão me salva. Faço um show sozinha. Tão bom. O sol da tardinha, eu sozinha e canto feito a Joan Baez. Mas ela dizia que a resposta estava no vento. Ela e o Bob Dylan. Mas não quero resposta. Quero cuidar de mim. Me colocar pra dormir. Me dar banho. Me dar de comer. Comprar meu chocolate favorito e assistir todos os filmes que amo. As Pontes de Madison, Vanilla Sky, Orgulho e Preconceito e hoje assisto E o vento levou e entendo porquê o Rhett Buttler largou a maluca da Scarlet. Antes eu achava que ela estava certa só porque era mulher. Sou feminista. Sem causa, mas sou. Hoje sei que existe sempre outro caminho. Outro ponto de vista. Outra opinião. Peixes e arcos que preciso acompanhar. Cuidando de mim vou lembrando que nada vai valer minha exaustão. Ando cansada, mas vou sair. Tenho o tempo nas mãos e me ajuda a previsão porque hoje tô cuidando de mim e que o amor não esqueça. Só volto quando me sentir tão cheia da minha cara e isso vai demorar porque a gente se ama sempre. Somos eu e eu no caminho, meu lado folk e deixa a idade ser grande porque não volto, embora ainda esteja aqui. Sai do aquário e vou conhecer o outro lado da lua que mora no jardim.


Por Letícia Palmeira


Photo by Goedele91