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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Parrhesia

ao ver-me no reflexo 
d’água empoçada 
na calçada
percebo que 
ando do mesmo jeito 
sem jeito 
sujeito inquieto
abstrato
insensato
estupefato 
calças largadas
joguem os dados
- outra vez -
continuo no jogo 


Image by Herod on Deviantart.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Frutos de maracujá

 À minha amiga Silvana Heath.
(Aquela que divide Gabriel comigo e 
mulher que gosta de sementes, flores e frutos)


O que antes eram flores indica que se faz tempo de colheita. Enquanto apanho enormes e belos maracujás amarelos, eu epifanizo. O Senhor Tempo me mostra que todo tempo é tempo de colheita. Cinco segundos e todo o filme de minha vida. Sempre fiz o papel de colhedora. Colho e acolho frutos até das sementes que não plantei. As sementes, por mim, plantadas me dão frutos esperados. Sejam bons ou ruins. Quase não há surpresas. Das sementes que não plantei é que me vêm os melhores frutos e as maiores surpresas. Sejam boas ou ruins, devo dizer. Ter o melhor fruto em mãos não significa dizer gosto adocicado na boca. Há frutos que são desejados exatamente por ter um sabor mais exótico, digamos assim. Aquelas flores das ramas de maracujá das quais falei outro dia e que, agora, me ligam a casa de minha vizinha se transformaram nos mais belos e cheirosos frutos de maracujá que já vi. No entanto, eles continuam deixando gosto amargo em minha boca. Continuo não gostando de maracujá. Mesmo assim, provo desse doce veneno. Mas, começo a trabalhar o meu paladar e estômago para o sabor do que chamo, então, meus maracujás. Há que se enfrentar o novo, o diferente, o estranho, o bom e o ruim. É assim que a vida se faz. Os tais maracujás enfeitam o meu quintal e tornaram-se minha escolha. Entraram sem bater. Sem querer, deixei-os ficar. Minha natureza acolhe frutos. Arco com as consequências. O meu quintal está repleto, também, de folhas secas de maracujá. Mosquitos são atraídos pelo aroma do maracujá. Isso me incomoda. Deixo passar. Há quem seja fascinado por maracujás em minha casa. Por isso, eu os colho com prazer e preparo as sobremesas mais saborosas e os sucos mais refrescantes com eles. Imagino eu. Porque não como, nem tomo (ainda) nada que leve maracujá. O prazer de dar alegria a quem amo é que move minh’alma. Sorrisos me chegam quando preparo qualquer coisa com maracujás em minha casa. Igualmente, sorrisos me chegam quando compartilho de meus maracujás com amigos e familiares. Um sorriso aqui outro ali, pessoas mais felizes, um mundo mais feliz - nem que seja até o sabor do maracujá fugir das bocas que os provam. Estou assim colhedora e acolhedora desde que me fiz entender gente. Colher e acolher frutos foi o que sempre fiz. Isso não é uma atividade restrita ao meu quintal. Do lado de fora da minha casa, continuo colhendo frutos. Frutos belos, de cheiro que aguça meus sentidos, de sabor que me agrada o paladar e que me dão as maiores alegrias de minha vida. Contudo, não vou mentir. “Não sou perfeito”, disse o poeta. Eu também não. Às vezes, eu erro a mão, outras os frutos decidem por si só o que fazer. Assim, o doce se torna amargo. Me assusta o resultado. Eu vivo tanto que me assusto por muitas e muitas vezes. Insisto em viver assim mesmo. Se é questão de escolha própria ou se fui levada a fazer certas escolhas, não importa. No final, a decisão sempre foi minha. Faço o que quero. Sou imensamente feliz por colher frutos de sementes que plantei. Sou imensamente feliz por colher frutos de sementes que foram plantadas em meu quintal. Assim como sou, também, imensamente feliz por colher frutos de sementes que não foram plantadas em meu ventre. No final das contas, a vida faz de mim a mãe sem filhos mais feliz de todos os tempos. 


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

ES - PA - ÇOS

Sala – Sofá – Quarto – Cama – Banheiro – Privada – Cozinha – Geladeira – Quintal – Varal – Pessoa – Coração – Livro – Página – Canto – Vazio.


Image by Seed on DeviantArt.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Flores de maracujá


Não é curta a vida. Curto é o nosso viver. Curto é o nosso olhar. O calendário perde seus dias e não enxergamos o que eles trazem e levam de volta. Neste ir e vir de dias que passam despercebidos, não percebemos a nós mesmos. É como se nos perdêssemos, também, por entre esses dias. Em um dia qualquer, sem querer, observei umas ramas de maracujá se arrastando pelo muro de meu quintal, oriundos da casa de uma vizinha que não me dá, sequer, bom dia. Minha reação foi instantânea. Não quero estas ramas invadindo o meu quintal. Embora o aroma da fruta me agrade, não suporto seu sabor. Mas, ignorei as tais ramas, ainda tímidas. Como insisto em voar diante da vida que me chega, os dias continuaram a fugir até que eu parasse, outra vez, em meu quintal. As, não mais tímidas, ramas de maracujá denunciavam minha ausência naquele lugar; denunciavam o que acontecia em minha casa; denunciavam minha cegueira frente a coisas simples; denunciavam minha abstenção diante da vida. O muro de meu quintal estava todo tomado por ramas de maracujá em um estado de vitalidade que não me pertencia. Flores e flores e flores de maracujá enfeitavam o meu quintal. Estática, eu observava as flores que virariam frutos. Retrocedi alguns passos, apanhei outras flores que haviam ficado em meu caminho. Senti o perfume de cada uma delas e resolvi não mais me apartar delas. Hoje, carrego um cesto cheio de flores de todos os tipos e cores.

Image by Andrea-h on DeviantArt

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Pórticos


Não era o cheiro do café matinal que me acordava. Café, em minha infância, era bebida ímpar. Crianças não deviam tomar café. Os sucos de frutas e leites trazem mais benefícios aos pequenos. Café, eu bebia no dia em que tinha bolo quentinho saindo do forno ao final de tarde. Ou, então, bebia com chantilly no dia em que chovia para esquentar. O que me acordava era o cheiro da tua orquídea na janela. Aroma singular. Sinto falta daquele cheiro. Mudei de janela.  Aliás, mudei de tudo. O café, agora, tomo na hora que quero. Nem hábito, nem revanche. Mas, adulta, tem coisas que posso fazer sem que me permitam ou não. Não sou de encher a cara, mas, tomo uma(s) taça(s) de vinho de vez em quando. Mesmo só, antes de dormir. Não ajuda em nada. Álcool não esquenta no frio e não cura resfriado. Só é gostoso. Quando é vinho bom, tem gosto bom. Não bebo o que me faz mal se tem gosto ruim. Voltando às janelas, eu continuo venerando-as. São meu passatempo preferido. Da janela, olhar a gente na rua. Admirar o gato, na janela, olhar a gente na rua. Aguar as plantas da janela. Falar ao telefone à janela. Conversar com gente da janela. Escrever usando a janela como mesa. O mais especial: tocar o céu da janela do avião. Não tenho medo de morrer quando estou voando. Estar no céu, dentro de um avião, é onde fisicamente posso chegar mais perto de Deus. Ao observar o mundo lá de cima, minha alma vive o quanto é grande o meu Senhor. Se eu tiver que morrer lá em cima, vou em paz. Porque é assim que eu me sinto ao ver o mundo daquela janela. Céu e oceano imensos, feito um só. E eu, parte disso, sou filho feliz por saber aonde Te encontrar e a tua orquídea, devolver.


 

Image by lafaette on DeviantArt

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Sobre Mulheres e fogo

A Queima de Sutiãs, no Atlantic City Convention Hall, em 1968, não aconteceu de fato. Mas esse é um exemplo de que fogo que não se acende também queima. O evento tinha a intenção de expressar um grito de liberdade por parte das mulheres que sentiam oprimidas as suas vontades, desejos, atitudes e, principalmente, sentiam que havia uma visão errônea daquilo que elas representavam ou podiam representar. A beleza que ostentavam era mais importante que o papel que elas podiam, verdadeiramente, ocupar na sociedade. 

Essa atitude incendiária, embora sem fogo, me tranquiliza quando lembro que também acendo as minhas fogueiras que não queimam, mas incendeiam. A questão não se centra no fato de eu ser mulher, assim como aquelas de Atlantic City. E sim, no fato de elas serem pessoas como eu. Pessoas que sentem e sabem que direitos nem sempre nos são garantidos. Às vezes, e muitas, temos que gritar para que esses direitos nos sejam dados. Não tenho medo de gritar. Nem como mulher, nem como pessoa. 

Por isso, eu grito. Não escandalizo. Mas grito. Grito porque sei da liberdade que me cabe e eu corro atrás dela quando ela não me chega. Aprendo fácil as lições que me são passadas. Não desaponto aos meus mestres. Com meu sutiã simbólico nas mãos acendo fogueira alta. 





Imagem da Internet.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Eu que lavava flores



Uma traça na parede do consultório da minha dentista. Relâmpago. Estico a mão e alivio meu incômodo psicótico. Tenho problemas com traças. Não deixo sequer uma pendurada em parede alguma. Nem em minha casa, nem em lugar nenhum. Minha dentista me olha com um semblante furioso. Parecia saber que usei minha psicose com traças para correr daquela cadeira em que, embora deitado, não se consegue relax. Há planos que mudam sem aviso prévio. Senhor Tempo decidiu, decidido está. Por quase duas horas, agonizo de boca escancarada sentindo o peso da mão daquela mulher. Saio de lá com a boca tão torta que não consigo comer minha torta preferida. Cheesecake de frutas vermelhas. Antes, eu preferia as tortas de maçã. Não sei, ao certo, por quê. Nunca fui americana do norte, nem ao menos estive nos Estados Unidos. Antes, tudo era diferente. Inocente eu era, gostava de andar no carrossel, tinha um cofre cheio de moedas, comia sem sentir fome, me empanturrava de jujubas e meus dentes não sofriam com cáries. Antes virou agora. Inocente desvirginada, os carrosséis me deixam tonta, tenho contas sem pagar, sinto fome toda hora, sofro de hipoglicemia e carrego um dente esburacado. Alias, dente é o que não me falta. Não devo ser digna de confiança. Ultrapasso os 32. Mais dois dentes estão surgindo em minha fóvea sublingual. Um de cada lado. Abstraio. Deixo o estresse para o momento de resolver o problema. Suspiro. Respiro. Sigo. Penso. Eu que lavava flores no jardim de minha avó era feliz e sabia.  


Image by germaine-en-tongs on Deviantart

sexta-feira, 4 de março de 2011

Céu sem calendário

Silêncio é palavra que não faz segredo.
Fábio de Melo


Inquietas. Eu e minhas memórias. Era preciso que eu começasse assim. Não devo falar em primeira pessoa. Sou um baú cheio de quinquilharias esperando ordem. Há dias em que a vontade de calar é mais forte que o meu falar sem vírgulas. Nestes dias, somos apenas nós. Eu e minhas memórias. Ninguém e nada mais nos cabem. Esta noite, enquanto eu calava, falavam as minhas memórias. Dia desconhecido, ano que não se sabe ao certo. Tempo perdido. Lugar preferido de minhas memórias. São José da Coroa Grande-PE. Passávamos férias lá, eu e minha avó. Tempo perfeito. Todos os meus sonhos cabiam em um baldinho de praia cor de rosa. Nos passeios à beira da praia, meus sonhos ficavam mais povoados. Juntavam-se a eles, conchinhas, estrelas do mar e peixinhos que catávamos na praia. Meu aquário cor de rosa foi minha primeira experiência com cuidados. Minha dedicação tamanha com aqueles seres não foi suficiente para que eles resistissem por uma noite. Nem assim eu desistia. A cada nova manhã, voltávamos, vovó e eu, a catar a vida para meu aquário cor de rosa e para os meus sonhos. Minha ingenuidade me fazia acreditar que a vida se renovava a cada nova conchinha, a cada nova estrela do mar e a cada peixinho que eu catava. Páginas arrancadas da Folhinha, bem sei que não é assim. Mas é bom pensar que podemos ter a vida de volta. Às vezes, volto a acreditar nisso. Voltar a São José me traz paz. Esqueço do tempo e calo. Não me importa o dia de hoje, onde estou ou como estou. Sinto o vento em meu rosto, pés sujos de areia, as mãos molhadas e cheias de sonhos. Tudo fica perfeito. Outra vez.


 


Imagem da Internet.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Baseado em fatos reais


Começo o dia com algumas certezas. Uma delas: posso não ter toda a felicidade do mundo, mas, tenho a felicidade que enche um copo d’água inteirinho. Decido, então, que não quero perder nem uma gota sequer dessa felicidade. Estou deixando tudo que me faz triste. Abraço as boas vibrações que chegam a mim. Tenho coragem e sei quem eu sou. É como disse o meu poeta russo preferido. Tenho coragem. Muita! Para ser e se estar feliz é preciso coragem. Depois da tempestade, minha vida volta ao normal. Acordo. Entendo que levo uma vida Anormal. Não faço parte do mesmo mundo que tantos e tantos. Não me importo. Prefiro assim. Prefiro rodear uma acácia amarela com os amigos que tenho que abarcar o mundo com um milhão deles. Das janelas da minha casa, sai apenas o que é real. Sai porque todo sentimento verdadeiro é livre. Não precisa ser atirado fora. O que sai pelas minhas janelas é tudo que vivo e sinto no mundo que me pertence. Mundo é particular. Cada um tem o seu. Não sou egoísta. Mundo também se partilha, sim. Partilho meu mundo com quem é parte dele. De verdade. É natural. O que sai pelas minhas janelas tem asa própria. A vida se multiplica por si só. Não há necessidade que eu viva uma vida que não corresponde ao que eu sinto e vivo de fato. Quero sentir intensamente a minha dor quando ela vier. Quero morrer de felicidade sempre que ela bater à minha porta. Quero da vida o que se pode pegar, contar, cheirar, comer, beber, derramar, enxugar, mergulhar, esparramar, ouvir, gritar, enxergar, calar, amar. Quero fazer do filme da minha vida uma história real. 




Image by Krecha on DeviantArt


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Água no café



É, no mínimo, curioso eu te pedir mais que eu posso ter. É tentação, também. Dissestes para eu pedir por um milagre e eu pedi, mesmo sabendo o quanto seria difícil somar a minha vida com a dele. Tenho tantas coisas. Talvez, um pouco menos que o meu egoísmo gostaria que eu tivesse. Mas tenho muito. Tenho tudo o que quis. Só não me imaginei não tendo aquilo que sempre pensei que tivesse. Sofro, ainda, por insistires em me dizer não. Paciência. Uma pausa para por água no café e acho graça quando lembro que não posso ter o isso que quero. Eu sei. Não quero mais. Prefiro ficar como estou. Mas a tormenta em minha cabeça acontece. Dizem ser normal. O mundo exige demais da gente. E, embora eu me recuse a viver enlatada, sucumbo, às vezes, às exigências sem sentido impostas a mim. Canso ao ser Fênix pelo menos uma vez a cada dia. Morrer e ressurgir para que o novelo siga em paz. É combustível. Não conseguiria viver se não pudesse me livrar de todo o mal que chega até mim. É o sol nascendo sempre que preciso for. Sou eu dizendo-me ser diferente mesmo sendo igual. Sou eu exercendo o poder que tenho de libertar a minha liberdade. Só é livre aquele que sabe libertar a liberdade que lhe cabe.

Image by porcelanita on DeviantArt

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Dias Ganhos



Não posso reclamar da vida que tenho. Escolhi pouco do que tenho. Tanto do que escolhi ter, não tenho. Mesmo assim, cada dia vivido é um dia ganho. Falo em primeira pessoa. Sou eu traindo o poeta fingidor. Nunca fingi dor. Eu sinto. E sinto alegria. Sinto a chuva que cai aqui dentro e lá fora. Sinto o calor do sol ardente e sinto o cheiro do suor que me sufoca. Sinto. Sinto o cansaço de um dia de trabalho. Sinto por não torcer pelo teu time contigo. Sinto o som de voz de negro em branco. Sinto. Sinto saudade porque eu conheci o lugar dos que amam. Sinto ansiedade. Sou complexa, louca, destemperada. Sou suave, pluma, travesseiro de pena de ganso. Sinto. Sinto tristeza. Sinto não ter chegado a tempo. Sinto por você nunca chegar. Sinto a poeira que se esconde pelos cantos (meu canto para dias estranhos). Sinto. Sinto tudo misturado e gosto. Sinto cada música, cada poema, cada livro. Sinto não saber juntar as linhas. Sinto. Eu sinto. Sinto você e sinto a mim. Eu vivo. Vivo, me alegro, me entristeço. Lembro que a tristeza que se apodera de mim não sufoca a alegria que me cabe. Sou feliz. Estou feliz. Se eu não precisava dizer, por que perguntou? 


Image by PapaNinja on DeviantArt.

domingo, 29 de agosto de 2010

Desnecessário






A minha janela não tem flor
Todas as sementes lançadas
Não vingaram





Image by LonelyPierot on DeviantArt