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sábado, 8 de setembro de 2012

Desejo


sabe aquela casinha
de beira de estrada?
rosa fugidio em cima
da taipa,
uma porta e
uma janela,
crianças brincando
na frente?
paraíso a céu
aberto

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Ao espelho


Seria aquela que era
Mulher de verdade

Tivesse eu
Nascido Amélia.

Tivesse nascido Hélia
Temeria ao meu deus.

Tivesse nascido Camélia
Meus pecados perdoariam

Tivesse nascido Ofélia
Ao rio me entregaria.

Entretanto, nasci Zélia
Vivo à revelia.


 Image by Frecklefaced29 on DeviantArt

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Pintura d'Alma

Não sei se sou
Garoa ou tempestade
Riso ou choro
Tempero ou destempero
Nem sei se sou ou estou
E quem dera todas as borboletas
Em meu quintal fossem azuis





Recomendo: 
Fernando Pessoa in: Cancioneiro (Nota Preliminar)

1 - Em todo o momento de atividade mental acontece em nós um duplo fenômeno de percepção: ao mesmo tempo em que temos consciência dum estado de alma, temos diante de nós, impressionando-nos os sentidos que estão virados para o exterior, uma paisagem qualquer. Entendendo por paisagem, para conveniência de frases, tudo o que forma o mundo exterior num determinado momento da nossa percepção. 
____________________

2 - Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E - mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes.      
_____________________
3 - Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo - num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva - e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma - é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que "na ausência da amada o sol não brilha", e outras coisas assim. De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de a dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior. Resulta que terá de tentar dar uma intersecção de duas paisagens. Tem de ser duas paisagens, mas pode ser - não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem - que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...] 


Image by AnneJulie on: DevintArt

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Elouquecencia

You don’t write because you want to say something, 
You write because you have something to say. 
Francis Scott Fitzgerald

 Você não escreve porque quer dizer algo, 
Você escreve porque tem algo a dizer. 
(Minha tradução)

 
 



Há quem não creia
Em minha retórica
De versos longos

Ensolarados 
Floridos 
Coloridos
Polidos 
Sonidos
Cândidos 
Descomedidos
Envaidecidos 
Sacramentados 


Em nada me afeta
Tua descrença
Minha voz permanecerá
LI BER TA
Enquanto Amor
Em mim
HA BI TA


Image by Lilfairie On DeviantArt

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Melopéia do amor tecido







A morte sendo
Amor tecido se desfia
Amortece coração que batia







Image by Icazell on DeviantArt

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Cadina

A velha Cadina era um cadinho tudo
Era um cadinho doce que nem jabuticaba madura
Era um cadinho amarga que nem melaço de cana de açúcar

A velha Cadina era um cadinho tudo
Era um cadinho cheiro de fumo de rolo
Era um cadinho gosto de coco queimado

A velha Cadina era um cadinho tudo
Era um cadinho folclore de livro de escola
Era um cadinho mãe de todos os filhos que nunca tivera

A velha Cadina era um cadinho tudo
Era um cadinho rio, era um cadinho cerrado
Era um cadinho festa, era um cadinho espanto

A velha Cadina era um cadinho tudo
Era a figura que povoou sonhos
De minha infância fugida



Image by Hop31355 On DeviantArt

domingo, 24 de julho de 2011

Desperdício



À um certo Poeta


Perdi-me em águas de tempos
Esquecidos em minha memória
Vivo enrolado em narrativas que
Fazem de mim caçador de almas

Alimento-me delas para seguir
Para destino algum se já me perdi
E há tempos não sei quem sou
Ou para onde devo ir

Repito-me em ações que não
Me deixam enxergar meu eu,
Cavaleiro Templário desfigurado
Sem armadura de fé ou de ferro

Encontro-me apenas em quarto crescente
Quando minh’alma de poeta transborda
E faço de mim maior poeta de todos os tempos
Enquanto o lápis deslizar pelo papel

Image by Littlewing77 on DeviantArt

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Desnuda diante de ti

À Juljan Palmeira.
 

(...) 

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria. 

 (...)

Augusto dos Anjos in: Monólogo de uma sombra

Rendo-me, meu amor,
à tua sabedoria odienta
por encontrar resposta
para todos os mistérios
de meu coração.
Juro jamais voltar
a chamar o nome
de teu Poeta em vão.
Em minha condição de sombra,
dialogo com outras sombras
e fazemos um brinde
à alegria contida em toda arte.  

Image by Jeremiahketnet on Deviantart

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A revelia

Trabalhando Letícia Palmeira.

O contexto fugiu
Deixando a casa sem teto,
As palavras sem lugar,
As pessoas sem oração
E descrentes de quem
Acreditar.


 

Image by Jensheron on DeviantArt

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Todo o mar do meu silêncio


Quando o que queres é silêncio
Dou-te todo o mar do meu silêncio
Silêncio que fala ao calar

Quando o que queres é silêncio
Dou-te todo o mar do meu silêncio
Silêncio que faz queimar

Quando o que queres é silêncio
Dou-te todo o mar do meu silêncio
Silêncio mesmo sem compreensão buscar

Quando o que queres é silêncio
Dou-te todo o mar do meu silêncio
Silêncio em forma de poema a vociferar

Image by B1nd1 On Deviantart

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Onde te perderas?


Assusta-me teu rosto
Cansado, amargo
Naufrago de mar fechado

Assusta-me teu rosto
Pesado, apavorado
Colecionador abstrato

Assusta-me teu rosto
Letargo, enrugado
Distante de meu cercado

Image by Miss Death on DeviantArt 

sábado, 12 de março de 2011

Adversos



A constante luta de nós dois
Faz de mim Eu, às vezes, Alter Ego
Se sou Eu, humano,
Sofro as consequências de meus atos
Se sou Alter, sobre-humano,
Falo o que preciso ouvir
Ingênuo, inconstante, enquanto Eu,
Nem ato nem desato minhas mãos
Astuto, insistente, enquanto Alter,
Liberto o que preso está
Ele, entidade de uma só face
Eu, homem de múltiplas faces
Rasgo espelhos quando
Neles não me reconheço


Image by Meluseena On DeviantArt

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Expresso liberdade

a traça sem carapaça
desliza a parede nua
sem intenções de alarde
quisera apenas livrar-se
do peso que carregara



Image by K-tim on DeviantArt

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Cardápio do dia



Todo ser humano
Deveria ser prático
Como um prato
Pronto para ser servido





Image by Vladstudio on DeviantArt

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Bon Goût






Gosto do gosto de boca
Jogado em minha boca
Quando beijo tua boca






Image by kperusita on DeviantArt

domingo, 23 de janeiro de 2011

Todas as letras


Todas as letras formam teu nome.
Da calçada de casa até a lua
Escrevo teu nome letra por letra.
Em cada uma, um pedaço de você,
Um tanto assim de mim.
Daquilo que estou
Quando contigo sou.



 Image by moloco on DeviantArt

To my little girl...


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Anunciação


Quando a semente cair ao chão,
Serás plenamente terra.
Germinarás fruto belo,
Doce e suculento.

Ouviu atentamente as palavras que lhe soaram
E voltou a dormir.


Image by Kperusita on DevinatArt

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Colorindo

Em meu reinventar da vida
O teu lugar é ainda o teu
O meu lugar é ainda o meu
Faltam algumas estrelas no céu
Mas o nosso amar é cheio de luas
E as estradas de tijolos coloridos.




Image by Lisiexshan on DeviantArt

sábado, 27 de novembro de 2010

Vitrais



Borboleta pousa na flor da janela
Ficaram coradas minhas bochechas.

Molho de tomate fervendo na panela
Dia de semana. Todo dia é dia de macarronada.

Ontem padre falou sobre o humano amor de Deus
Enquanto eu precisava sentir amor divino.

Duas maçãs no escuro, vejo claro
Prefiro gozo duplo a orgasmo lavado em água.

Fim do dia, gato e cachorro se aninham
Deito e espero o dia nascer feliz.


Image by ~seiskyo on DeviantArt

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Chão de mim



Solto minha roupa ao chão como quem deseja que ela leve todo o peso em minhas costas.
Nada feito! Mesmo livre, o peso do mundo parece dobrar sobre meus ombros.
Estou muito cansada. Parem o mundo que eu quero descer.
Frasezinha clichê? Não, não! Prefiro frasezinha de merda. Mais realístico. Realisticamente,
Eu, hoje, sou chão. Estou cansada e não entendo porque o mundo tem que girar
Mais rápido, às vezes. Fico tonta na primeira volta. Foi sempre assim.
Parque de diversão na Lagoa, seis, sete anos, aviãozinho rodando, vômito para todo lado.
Enjôo. Nada de filhos meus. Só os dos outros. Cansei. Estou cansada.
Me deito ao chão. Chão onde estão minhas roupas. Chão, aquilo que hoje sou.
Me deito ao chão. Chão de terra batido.
Me deito ao chão esperando desaparecer na poeira que colore o dia.




Image by Adnil on DeviantArt