domingo, 18 de abril de 2010

Aonde Aristóteles não chega



Mais dois passos, ela descobriria o que a salvaria daquele afogamento no mar de lamúria que cobria seu quarto. Mas ela não movimentava mais suas pernas. Não saía do lugar em que se enfiara depois que sentiu que não entendera o que lhe dissera o livro que acabara de ler. Era tudo tão claro. Claro se ela não visse apenas o lado escuro que não existe da lua. Era tudo escuro então. Escuro dentro do claro que ela não consegue enxergar. Lembro de certo ensaio sobre certa cegueira. Certamente ela se sente impotente, insegura e abandonada. Esquece que nunca se está realmente só: temos outros em nós, a música que toca, a letra que forma, o pássaro que voa, a lembrança que povoa, o filme que passa, o desconhecido que acena na esquina, a chuva que cai, o sol que nasce, a lua que brilha, a estrela que reluz e você que vai chegar. Ela espera. Eu espero.


Image by Chocolatita on DeviantArt