sábado, 5 de setembro de 2009

Texto-livro




Era uma vez a história de mim mesmo e de certo presente que ganhara durante a minha infância – não sabia eu, ainda por ter a sua pureza e tranquilidade interrompidas prematuramente.

Estávamos no quintal de casa, minhas irmãs e eu, debaixo do meu pé de jambo. Meu porque tomara conta dele desde que nos mudamos para a casa que pertencera a minha avó “Miolanda”. Era na copa daquele pé de jambo que eu costumava me esconder quando alguma coisa me entristecia ou me enfurecia. Curioso era que lá eu acreditava estar a salvo. Meu esconderijo secreto. Na verdade, esconderijo, aquele lugar só fora na primeira vez que me escondi lá. Logo me descobriram ali. Mesmo assim, eu subia lá nos momentos em que eu procurava refúgio. A copa daquela árvore era meu refúgio sagrado. Do alto de meus nove ou dez anos, eu já fazia as minhas reflexões.

Bem, estávamos debaixo do meu pé de jambo – Ah! Ainda hoje sinto uma saudade danada de boa quando vejo um jambo ou um jambeiro. Comer um jambo, então, é como estar lá em cima outra vez. Meu pai se aproxima. Meu pai... Figura indecifrável para mim naquela época. Ele já se foi. Não penso mais tanto nele. Absolvi-me da culpa que nunca tive e procuro aceitar o que chamam Destino. Ele teve o dele, eu sigo o meu. Meu pai... Talvez, tenha sido esse o único momento realmente feliz e livre de qualquer sentimento negativo que ele me obrigara a sentir com relação a ele. Meu pai trazia nas mãos uma caixa. Não era uma caixa bonita, colorida, com laço de fita de cetim. Era uma caixa comum, de papelão. Podia ser uma caixa de um leite qualquer ou de biscoito maisena. Daquelas que levam os produtos para o supermercado. Na hora, não pensei em nada. A caixa estava aberta e dava pra ver o que havia dentro dela. Não importava coisa alguma do lado de fora da caixa. Apenas o que ela trazia. Era um filhotinho de cachorro. A coisa mais mágica que vi até aquele momento de minha vida. Ele era todo branquinho. Só tinha o focinho e os olhos pretos. Se ele saísse rolando seria confundido com um grande chumaço de algodão.

Não sei por que cargas d’água meu pai cismou em dar nome aquele cachorro. Era bem característico dele isso. Tudo o que ele fazia implicava em uma condição. Nos trouxe um presente que não lembro termos pedido – sendo o filho mais velho, eu haveria de me lembrar disso. Todas as crianças que conheço, pedem por um animalzinho de estimação aos seus pais. Se pedi, não lembro. Sei que o presente chegou. Era um filhote de cão vagabundo. Assim como a caixa que o trazia. "Sem raça definida" – assim passaram a chamar os vira-latas. Branquinho, branquinho. E meu pai insistiu em chamá-lo de Black. Certamente, ele não sabia inglês, penso eu. Porém, eu, logo descobriria que “black” não era branco e que Black não era preto. Essa, talvez, tenha sido a minha descoberta mais besta. Que importava isso? Conheço uma Jéssica que se chama “Géssica”! Será que Géssica tem a sua identidade abalada pela troca do J pelo G? Black correndo de um lado para o outro nem suspeitava da querela que o envolvia. Entendia que se chama Black. Era só chamar. Ele vinha correndo.

Essa questão não durou muito na minha cabeça. E nem poderia! As brincadeiras com Black me fizeram esquecer de qualquer coisa que me desagradava. Até o meu pé de jambo ficou sem uso. A não ser pelos jambos que eu continuei comendo. Não sei quantos anos Black completou comigo. Embora aquele tempo parecesse infinito, sei que foram poucos. Assim como que de repente, um terremoto abalou a minha casa. Abriu-se um enorme buraco no chão. Meu pai desandara de vez a perder os sentidos entornando copos e copos com aquela água de cheiro forte e gosto amargo. Ele usava sempre limão nesses momentos e ouvia Roberto Carlos em altíssimo e bom som. Fiquei um tempo sem poder sentir o cheiro ou ver um limão. Quanto ao Roberto, ainda estou tentando me reaproximar dele. Não dava mais para a minha mãe. Nem para mim. Eu tinha um irmãozinho pequeno. Minhas irmãs já não queriam mais voltar para casa quando saiam para a casa da minha outra avó. Eu tinha que voltar. Eu tinha a minha mãe, um irmãozinho e um cachorro. Mas depois daquele terremoto, tivemos que sair correndo de lá. O cachorro ficou. O lugar que serviria de abrigo para mim, minha mãe, meu irmãozinho e minhas irmãs, mal comportava a todos nós. Fui obrigado a esquecer o cachorro.

Um dia voltei. O terremoto tinha levado muita coisa. O pé de jambo ainda estava lá mas sem jambos. O cachorro era outro. Quis me morder quando me aproximei. De coração infantil despedaçado, pensei que era melhor esquecer o terremoto, o pé de jambo, meu pai e o cachorro. Continuei seguindo meu Destino que passara a ter uma estrada tortuosa. Algum tempo, não sei quanto - havia esquecido dos dias e noites. Era tudo igual agora - encontrei um cachorro branco na rua. Estava diferente daquele que quis me morder. Estava mais magro, sujo e estava gentil. Não Black mas o nome Brown era que lhe caberia naquele dia. Ele nos seguiu até o nosso novo abrigo. Mas não podíamos ficar com ele. Já éramos seis lá. Não havia lugar para um cachorro. Por isso, fingíamos não conhecer aquele cachorro. Minha mãe disse ser melhor assim. E eu fingia. Não pensava. Só fingia. E esquecia toda a alegria que aquele cachorro me trouxera. Seguimos assim. O cachorro nos seguia e nós o ignorávamos. Mais um dia, dois dias, três dias, o cachorro desapareceu. Tudo resolvido. Vai ver ele seguiu seu Destino.

Eu não precisava mais fingir que não conhecia o cachorro. Ele não mais poderia servir de ponte que nos levaria de volta ao meu pai. O meu Destino, cada vez mais, de estrada tortuosa me faz seguir. Eu cresço. Passo a sentir falta do meu cachorro. Que diabos ele tinha que ver com aquele terremoto? Tomara que exista mesmo o céu dos cachorros. Sei que ele já se foi. Talvez esteja com o meu pai. Quando eu me for, quero ir para lá, também. Preciso pedir perdão ao meu Black. Dessa culpa que não tive, não consegui me absolver. Espero te abraçar de novo, amigão!

Era uma vez a história de como me perdi de meu cachorro. Me chamam Álvaro. Eu tinha um cachorro branco que se chamava Black.



Image by Lundern on Deviant Art

sábado, 29 de agosto de 2009

Poesia não sabe ler calendário



Torto tempo
Tempo torto
Sabia que você viria
Não sabia que partirias tão brevemente
Finda-se a Primavera em mim
Ainda que permaneçam
As cores da estação
Um olhar para dentro de Mim
Você ainda está lá
Renova-se a vida e
Toda a Poesia que há nela
Sorte minha!
Poesia não sabe ler calendário



Image by *ploop26 On Deviant Art

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Paisagens no espelho


Eu era

a criança que você amamentou

Eu era

os primeiros passos para os teus braços

Eu era

a escola da tia Hélia

Eu era

a língua que cantava outras vozes

Eu era

a namoradinha de sempre

Eu era

o catar de conchinhas na praia

Eu era

a mãe do filho que não gerei

Eu era

noites sem dormidas

Eu era

hebreu em busca de liberdade

Eu era

a voz que calou

Eu era

a menarca atrasada

Eu era

a matemática de conta inexata

Eu era

a física de circuito fechado

Eu era

a química de explosões

Eu era

sonho acordado

Eu era

sonho dormido

Eu era

sonho que cabia nas mãos

Eu era

todo alfabeto

Eu era

amor encontrado

Eu era

luz em fim de túnel

Eu era

amiga de relógio sem ponteiro

Eu era

flor de jardim

Eu era

jardim sem flor

Eu era

árvore sem fruto

Eu era

cesta de frutas

Eu era

livro de cabeceira

Eu era

sol entrando pela janela

Eu era

luz da lua no mar

Eu era

o encontro ao chão

Eu era

escada magirus

Eu era

poltrona de nuvem

Eu era

solo Mayor

Eu era

vida que sai do choro

Eu era

funeral sem corpo

Eu era

corpo e funeral

Eu era

volta

Eu era

espera

Eu era

chegada

Eu era

Edouard Glissant lá da Martinica

Eu era

o sexo que você desejava

Eu era

nós

Eu era

você

Eu era

eu

Eu era

o que já não sou mais

Assumo

o princípio da exotopia

A cada instante

uma peça nova no Mosaico

Vivo o novo de cada dia

E feliz

Sou




Image by Yvimae457 on Deviant Art

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

So, não soul



Na terceira margem do rio

A personagem fala de seu pai

Diz que era sério

Nunca terei filhos para que digam o que era o seu pai...

Mas também eu não estaria vivo para ouvi-los dizer

Como seu pai (há rio no) suas vidas...



José Ferreira Sobrinho – 07/08/09