quarta-feira, 24 de março de 2010

Todas as maçãs de Hera




Sol nascente de um dia quase comum. Ainda de olhos fechados ouço seus passos. Você quebra todo o silêncio. Com você o silêncio sempre falou duas vezes. Insisto em manter meus olhos fechados. Não sei se não consigo e, por isso, finjo ter algo de importante para lhe dizer. Abro os olhos. Você sorri. Minha vez de quebrar o silêncio que já disse o que tinha que ser dito. Dou meu recado. Estou linda quando acordo, sou Linda não McCartney. O que já não seria um dia comum deixa de ser menos comum. Outra vez, silêncio quebrado por palavras em melodia. Asas ritmadas para me deixar recado que ao meu não se compara. Tempo segue seu caminho. Destino de nós dois. O silêncio que fala cala. Ouço e enxergo uma(s) vida(s) em páginas coloridas. Silêncio quebrado e com um beijo selado. Você me pede para seguir, eu sigo. Eu sou a linha, você o carretel. Sol dá lugar à chuva que cai lá fora. Silêncio quebrado em gotas mas que não deixa de falar.


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sexta-feira, 12 de março de 2010

Flores brancas nas mãos




Hoje o dia está mais branco que os outros dias. Talvez porque ela esteja farta de ouvir coisas que não cabem nela. É dia da mulher – não seriam todos os dias? Mulher se descobriu cedo. Ainda criança, fazia seus planos de menina que desagradava Santo Antônio. Estudava, sabia que se formaria e teria uma carreira. Em casar e ter filhos sempre pensou. Principalmente nos filhos. Só não deixava de acreditar na sua tia quando dizia que “homem não é tudo para uma mulher”. E não é! Nem os filhos são. Contudo, essa vontade de ter filhos... Nasceu e cresceu com ela. Quem sabe se não foram as brincadeiras com bonecas e o fato de ela, filha e prima mais velha, ter tido que brincar com bonecas e bonecos de verdade? Agora, entende porque sua prima não quer a filha brincado de ser mamãe, de cozinhar ou de passar roupa. Anna Beatriz brinca com pinturas, quis fazer balé desde novinha, faz teatro e tem livros como amigos de todas as horas. Frequenta biblioteca infantil como adulto não frequenta bibliotecas preparadas para eles. A mulher do dia branco, estando adulta, cumpriu sua obrigação de mulher uptodate antes de cumprir a sua obrigação de mulher old fashioned – ela prefere esses termos. Cabem melhor nela. Fez a profissão primeiro. O marido, depois. Filhos não! Continua brincando com as bonecas e bonecos que passam por ela. A parte que faz dela mulher uptodate está falando mais alto. Se ela tivesse nascido no século XIX, ganharia rótulo de sufragista, teria tirado o sutiã, gritaria em praça pública. Antes tais atitudes tivessem resolvido a questão feminina. Ao menos, foi um começo. Ora! Ser parideira, tomar conta de marido, filho, esquentar a barriga no fogão, lavar e passar roupa sem poder decidir quem vai ser o cretino que, em seu lugar, vai mandar mais do que ela só porque tem cargo político? Não! Ela quer votar - raramente acerta. Mesmo não nascendo no século XIX, tira seu sutiã todos os dias e grita em praça pública sempre que precisa. O passo preciso é que é preciso acertar. Mulher uptodate trabalha mais que mulher old fashioned. Ganha menos. Continua passando roupa, esquentando barriga, escorando marido, dando banho em menino sujo, chorando escondido. Foi-se o tempo de uma reviravolta. Entretanto, não há necessidade de guerra armada. A guerra pode ser condimentada. O tempero certo, na medida certa para cada prato. Nada mais de “Feliz dia das Mulheres”. Isso parece coisa feita apenas para dizer que nos lembramos de veteranos de guerra, por exemplo. E aí? Para que eles servem e o que é feito deles? Seu dia é todo dia. É Mulher todos os dias. Inteira. Embora, às vezes, aos pedaços. De pedaço e pedaço, sempre faz o que quer. Decidiu escrever e aparecer. Foi escritora antes de ser muitas coisas. Só não antes de ter sido leitora. Sempre leu tudo e não leu nada. Escrever, ela escrevia até cansar. Agora, a mulher desse dia branco lê menos e escreve menos porque vive mais. Avalanches não são seguradas com as mãos. Assim, ela vai construindo o mosaico que é com peças que recolhe no caminho. Nada a escapa. Vê longe e fala sem vírgulas. É Apolo e é Eros. Hera em todas as estações. Ela tem um Amor, um anjo e várias canções. Vivendo, é Mulher. Tirando o sutiã, é militante. Amando, é amante. Escrevendo, é escritora. Ensinando, é professora. De todas as formas, há um desejo apenas de mostrar as pessoas um mundo de janelas abertas. Tem paredes pintadas, se vê todos os dias no espelho mas só chega há seu tempo.


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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Minha vida em sarabanda

“A vida é louca
a vida é uma sarabanda
a vida é um corrupio...”

Mario Quintana.
A canção da vida in: Esconderijos do tempo.




Acordo em um dia em que o tempo parou. Assim como quando estamos cruzando um oceano em um avião. As horas se soltam do relógio, os dias se confundem no calendário e estações se invertem. Assim como quando os compassos de uma canção são esquecidos e paramos a música antes que ela termine. Descompasso ou um novo compasso? A vida é louca, diz o poeta da simplicidade. É a loucura ou a razão que é necessária pra se viver? Houve um tempo em que loucura e razão não andavam separadas. À época da revolução industrial, elas tomaram destinos diferentes. Teria a vida se tornado sana ou insana com todas as mudanças ocorridas? “A vida é louca. A vida é uma sarabanda”. Volta o poeta. Entendo que a vida apenas exige certo compasso. Não o da sarabanda espanhola mas o compasso que um corrupio nos dá. Nem sempre decidimos o tom que queremos seguir. A vida faz isso por nós. Por isso ela é louca. Por isso é uma sarabanda. Ela exige compassos. Quem não consegue segui-los estará fora da dança. Hoje, não posso dizer que dia é. Fui dormir ainda hoje e acordo com um hoje que não planejei. Há música tocando lá fora. Ela me chama para dançar. Devo seguir o ritmo da canção. Não importa se estou cansada, se esqueci os passos a seguir ou se não quero bailar. Se estiver feliz, bem disposta e com vontade de dançar a tal dança, melhor. Acontece que a vida é louca – por loucura, entenda-se a negação do conceito empregado pela medicina e sim algo que foge ao controle pretendido apenas. E corre. Dá rodopios. Faz piruetas. Por isso, ela nos cobra sempre a andar na contramão. Será mais feliz e forte aquele que conseguir seguir seus compassos. Eu, nesse dia que não sei qual é, vou seguir os compassos que me foram passados – o que não quer dizer que eu me saia bem. Assim como se entrega um script a um ator. Talvez por isso Shakespeare tenha dito que “a vida é um palco”. Palco e sarabanda. Céu e estrelas. O papel que deverei desempenhar neste dia sem data não será o mais difícil. É apenas o primeiro ato de uma peça de compassos incertos. Não sei se acertarei os passos. Só o Amanhã dirá. Mesmo que eu não saiba a que horas, a que dia ou a qual estação chegue esse Amanhã.






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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Flores de palavras




A poesia sensibiliza qualquer ser humano.
É a fala da alma, do sentimento.
E precisa ser cultivada.

Afonso Romano de Sant’Ana



Por isso eu faço poesia
Porque minh’alma fala
Meu sentimento chora
Quando minha voz não é ouvida
Quando não consigo te alcançar
Quando não me enxergas mais
Ou quando me alegro
Quando o sol me acorda
E a lua me beija
Eu escrevo poesia
Não podes dizer que assim não o seja
Minh’alma fala, meu sentimento clama
E há flores em meus jardins
Flores de palavras
Textos em ramalhetes
Se és humano
Tens que se sensibilizar com a minha dor
Dor que nem dói mais
Depois de um poema cultivado
Poema que me traz alívio e alento
Que expressa meu canto
Se não és humano o bastante
Me deixa quieto de vez
Vou me deitar entre minhas flores
E a cada pétala que eu juntar
Terei um outro verso
Para um novo poema



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