sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Melopéia do amor tecido







A morte sendo
Amor tecido se desfia
Amortece coração que batia







Image by Icazell on DeviantArt

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Orquídeas, bichos e o nós.



 Ela, falante. Braços abertos para carregar o que é seu e, também, o que não é. Não foi sempre assim. Aprendeu que, quanto mais os braços ela esticava, mais coisas ali cabiam. Anda pendendo de um lado a outro de tanta coisa que carrega. Sorriso constante nos lábios, ele se apaixonou por ela. Ela sorriu e o carregou. Coube direitinho em seus braços abarrotados. Ela viu o que outros não viam. Juntaram-se e ele aprendeu a esticar os braços e a carregar coisas. 

Ele, cantante. Voz berrante a clamar contra paradigmas. De berro em berro, a construção de um ser em outros seres. Foi sempre assim. Porte viril e camisa amarela, ela já estava apaixonada por ele. Ele dobrou o joelho e a segurou pela mão. Presos ficaram. Juntos já estavam e ela aprendeu a deixar algumas coisas pelo caminho. 

Orquídeas, coloridas. Enfeitam, pelo lado de fora, as janelas da casa onde moram. Fortes de caras frágeis. São como eles. Precisam ser cultivadas. Têm vida longa. Dão gosto aromatizado as bocas e saciam fome de quem sabe comer - Os   excessos escapam a qualquer humano. Apenas se diferenciam pelos órkhis que apresentam. Insetos só polinizam flores. 

Bichos, soltos. Alegram a casa de dia e de noite. São como as orquídeas. Precisam ser cuidados. A vida, para eles, não é tão longa. Abraço apressado de aconchego que afaga a alma. Sacia vontade. Estima e ação. Combinação perfeita em um mundo que se constrói. O tempo é sempre novo de novo quando o amor é cachoeira. Água que lava, alimenta e faz viver. 

 Image by JuncoChick on DeviantArt.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Cadina

A velha Cadina era um cadinho tudo
Era um cadinho doce que nem jabuticaba madura
Era um cadinho amarga que nem melaço de cana de açúcar

A velha Cadina era um cadinho tudo
Era um cadinho cheiro de fumo de rolo
Era um cadinho gosto de coco queimado

A velha Cadina era um cadinho tudo
Era um cadinho folclore de livro de escola
Era um cadinho mãe de todos os filhos que nunca tivera

A velha Cadina era um cadinho tudo
Era um cadinho rio, era um cadinho cerrado
Era um cadinho festa, era um cadinho espanto

A velha Cadina era um cadinho tudo
Era a figura que povoou sonhos
De minha infância fugida



Image by Hop31355 On DeviantArt

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O homem que morreu sorrindo

Menelau Pereira de Não Me Lembro ao Certo, mais conhecido como Seu Mené, fôra encontrado morto debruçado sobre uma calçada na Rua da Areia. Buchicho do dia. Seu Mené sempre rendera conversa. Um criticava daqui, outro dali, fulano dizia sentir pena dele, enquanto sicrano se deliciava com a desgraça alheia. Seu Mené era feirante bem sucedido. Fôra um dos pioneiros do Mercado Central. Vendia de tudo em sua barraca. De verduras a frutas, de carnes a queijo. Gente de todos os lados vinha comprar com ele por causa da qualidade de seus produtos. Seu Mené era muito exigente, me confessou a sua mulher, que já não exercia mais esse papel há tempos. Seu Mené só não foi exigente com ele mesmo. Do gole de pinga antes do almoço, Seu Mené foi passando para a garrafa, depois garrafas e mais garrafas de pinga. Seu Mené já não devia ter mais nada por dentro. Assim como não tinha por fora. Perdeu seu comércio, perdeu seus fregueses, perdeu a família, perdeu sua dignidade, perdeu seu amor próprio, perdeu sua saúde, perdeu seus amigos que se diziam verdadeiros. Sobraram-lhe apenas as barracas onde ele continuava bebendo e alguns companheiros a lhe fazer companhia apenas para não beberem sozinhos. Bêbado tem isso. Não gosta de beber sozinho. Parece saber que a bebida se não é boa companhia para quem está junto, imagine para quem está só. Lembro que Seu Mené chegou, por várias vezes, a fazer pequenos serviços para Seu Zezé em troca de alguns goles de pinga. Seu Zezé era o único que ainda lhe aguentava. Talvez, não se deva mesmo espantar fregueses. Eu também não fiz nada por Seu Mené a não ser sentir pena e rezar por ele. Minha pena não o levou a lugar algum. A minha reza, tenho certeza que contribuiu para a paz de sua alma. Outra coisa que fiz por Seu Mené foi ficar pensando em como não se fazia nada para ajudar aquele homem. A mulher havia desistido dele, os filhos lhe viravam a cara, para o resto da família ele não existia e os amigos, aqueles antigos, nem sequer bom dia lhe davam. Eles diziam já terem feito de tudo e que Seu Mené bebia porque era safado mesmo. Não tinha vergonha na cara. Mas eu sempre me perguntava se aquilo que eles haviam feito foi o certo. Quando alguém falha com o outro é porque não foi assertivo. Falharam com Seu Mené. O que me intriga ao acordar com a notícia da morte de Seu Mené é que ele morrera sorrindo. Vi o sorriso em seu rosto. Mais buchicho. “O veio era safado mesmo. Rindo de sua própria desgraça”. Fico a pensar... Seu Mené sempre me fez pensar muito. Não acredito que ele esteja rindo de sua própria desgraça. Seu Mené chorava por dentro o tempo todo. Não acredito que ele esteja rindo porque viveu como quis e bem entendeu. Seu Mené sempre quis outra vida. Não a que tivera antes. Certas coisas quando vão, não voltam. Seu Mené sonhava com uma vida em que ele pudesse ir e vir sem ter que carregar o corpo com álcool. Estava nos olhos dele. Para mim, Seu Mené sorriu quando viu o Anjo que veio lhe buscar. Deus não se esquece de nenhum de seus filhos. Era chegada a hora de Seu Mené. E toda morte é grande. Há sempre uma mãe que chora a morte do filho bandido morto, uma criança que chora a morte de seu cãozinho, o pai que chora a overdose da filha e eu que não conhecia, de fato, o Seu Mené, mas que velo sua morte. Talvez, eu mesma não tenha sido assertiva com ele. Além de pensar nele e rezar por sua alma, deveria era ter estendido a mão ao Seu Mené, lhe tirado os sapatos e lavado seus pés com fez Jesus com seus discípulos. Não pensem que almejo ser igual a Jesus. E não quero ser santa. Nem ao menos quis ser freira como sonhou para mim a minha avó. Apenas penso que podemos fazer sempre mais pelos outros. Porque é isso que esperamos que façam conosco. Esperamos sempre mais.


















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