domingo, 18 de abril de 2010

Aonde Aristóteles não chega



Mais dois passos, ela descobriria o que a salvaria daquele afogamento no mar de lamúria que cobria seu quarto. Mas ela não movimentava mais suas pernas. Não saía do lugar em que se enfiara depois que sentiu que não entendera o que lhe dissera o livro que acabara de ler. Era tudo tão claro. Claro se ela não visse apenas o lado escuro que não existe da lua. Era tudo escuro então. Escuro dentro do claro que ela não consegue enxergar. Lembro de certo ensaio sobre certa cegueira. Certamente ela se sente impotente, insegura e abandonada. Esquece que nunca se está realmente só: temos outros em nós, a música que toca, a letra que forma, o pássaro que voa, a lembrança que povoa, o filme que passa, o desconhecido que acena na esquina, a chuva que cai, o sol que nasce, a lua que brilha, a estrela que reluz e você que vai chegar. Ela espera. Eu espero.


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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Antônimos são Sinônimos


Nasci e tive a rua como berço, casa, escola, restaurante. Logo me vi afastado dos meus iguais. Há quem chame a isso Liberdade. Confesso que, muitas vezes, preferi as grades que cercam o jardim da casa grande ali na esquina. Essa liberdade que dizem ter nascido comigo mais parece sinônimo de abandono, solidão. Ando por quase todas as ruas dessa cidade. Das sete vidas que tinha me restam não mais que duas. Do calor do sol é mais fácil me proteger. Há sempre uma árvore com uma sombra a mão. Uma torneira pingando em algum lugar. É o frio o que mais me incomoda. Até comida é mais fácil conseguir. Sou matreiro. Aprendi a reconhecer os cheiros muito bem. Escolho o que quero comer. É bem verdade que o quando eu não posso definir. Mas o frio dói. Faz a alma congelar. Nesses momentos é que me sinto mais sozinho. À noite, então... Todo mundo trancado, abraçado, debaixo de cobertas. Eu vago à procura de um lugar quente. Um lugar aonde eu possa sentir outro coração batendo. Dois corações esquentam melhor a alma. Paro na frente de uma parede de tijolos vermelhinhos em uma das ruas mais importantes da cidade. Quem sabe a cor vermelha não me faça ver e sentir um coração imenso me engolir por inteiro. Talvez, esse frio que me paralisa desapareça. Abro os olhos pela metade. Consigo ver algo não igual a mim. Pelo menos não na aparência. É um pouco diferente. Está só. Parece ter frio também. Ele se aproxima timidamente. Já sinto um vento quente soprar. Vou deixar que ele chegue mais perto. Que abraço aconchegante... Sinto o seu coração bater. Vou ainda mais perto. Já não sinto frio. Meu coração parece ter parado de bater. Espere. Meu coração bate junto com o dele. No mesmo ritmo. Continuamos diante da parede de tijolos vermelhinhos e não estamos mais sós. O frio já não incomoda tanto. Minha alma encontrou alento em quem não me é igual mas que sabe que o mundo não se faz na indiferença e sim na necessidade de cada um. Seja ele quem for.







Pessoas não podem se desfazer de animais de estimação. Assim como devem se responsabilizar por todos os cuidados que eles requerem. Quem é tido como ser "não pensante" não pode pagar por aqueles que "pensam".

Imagem de autor desconhecido.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Todas as maçãs de Hera




Sol nascente de um dia quase comum. Ainda de olhos fechados ouço seus passos. Você quebra todo o silêncio. Com você o silêncio sempre falou duas vezes. Insisto em manter meus olhos fechados. Não sei se não consigo e, por isso, finjo ter algo de importante para lhe dizer. Abro os olhos. Você sorri. Minha vez de quebrar o silêncio que já disse o que tinha que ser dito. Dou meu recado. Estou linda quando acordo, sou Linda não McCartney. O que já não seria um dia comum deixa de ser menos comum. Outra vez, silêncio quebrado por palavras em melodia. Asas ritmadas para me deixar recado que ao meu não se compara. Tempo segue seu caminho. Destino de nós dois. O silêncio que fala cala. Ouço e enxergo uma(s) vida(s) em páginas coloridas. Silêncio quebrado e com um beijo selado. Você me pede para seguir, eu sigo. Eu sou a linha, você o carretel. Sol dá lugar à chuva que cai lá fora. Silêncio quebrado em gotas mas que não deixa de falar.


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sexta-feira, 12 de março de 2010

Flores brancas nas mãos




Hoje o dia está mais branco que os outros dias. Talvez porque ela esteja farta de ouvir coisas que não cabem nela. É dia da mulher – não seriam todos os dias? Mulher se descobriu cedo. Ainda criança, fazia seus planos de menina que desagradava Santo Antônio. Estudava, sabia que se formaria e teria uma carreira. Em casar e ter filhos sempre pensou. Principalmente nos filhos. Só não deixava de acreditar na sua tia quando dizia que “homem não é tudo para uma mulher”. E não é! Nem os filhos são. Contudo, essa vontade de ter filhos... Nasceu e cresceu com ela. Quem sabe se não foram as brincadeiras com bonecas e o fato de ela, filha e prima mais velha, ter tido que brincar com bonecas e bonecos de verdade? Agora, entende porque sua prima não quer a filha brincado de ser mamãe, de cozinhar ou de passar roupa. Anna Beatriz brinca com pinturas, quis fazer balé desde novinha, faz teatro e tem livros como amigos de todas as horas. Frequenta biblioteca infantil como adulto não frequenta bibliotecas preparadas para eles. A mulher do dia branco, estando adulta, cumpriu sua obrigação de mulher uptodate antes de cumprir a sua obrigação de mulher old fashioned – ela prefere esses termos. Cabem melhor nela. Fez a profissão primeiro. O marido, depois. Filhos não! Continua brincando com as bonecas e bonecos que passam por ela. A parte que faz dela mulher uptodate está falando mais alto. Se ela tivesse nascido no século XIX, ganharia rótulo de sufragista, teria tirado o sutiã, gritaria em praça pública. Antes tais atitudes tivessem resolvido a questão feminina. Ao menos, foi um começo. Ora! Ser parideira, tomar conta de marido, filho, esquentar a barriga no fogão, lavar e passar roupa sem poder decidir quem vai ser o cretino que, em seu lugar, vai mandar mais do que ela só porque tem cargo político? Não! Ela quer votar - raramente acerta. Mesmo não nascendo no século XIX, tira seu sutiã todos os dias e grita em praça pública sempre que precisa. O passo preciso é que é preciso acertar. Mulher uptodate trabalha mais que mulher old fashioned. Ganha menos. Continua passando roupa, esquentando barriga, escorando marido, dando banho em menino sujo, chorando escondido. Foi-se o tempo de uma reviravolta. Entretanto, não há necessidade de guerra armada. A guerra pode ser condimentada. O tempero certo, na medida certa para cada prato. Nada mais de “Feliz dia das Mulheres”. Isso parece coisa feita apenas para dizer que nos lembramos de veteranos de guerra, por exemplo. E aí? Para que eles servem e o que é feito deles? Seu dia é todo dia. É Mulher todos os dias. Inteira. Embora, às vezes, aos pedaços. De pedaço e pedaço, sempre faz o que quer. Decidiu escrever e aparecer. Foi escritora antes de ser muitas coisas. Só não antes de ter sido leitora. Sempre leu tudo e não leu nada. Escrever, ela escrevia até cansar. Agora, a mulher desse dia branco lê menos e escreve menos porque vive mais. Avalanches não são seguradas com as mãos. Assim, ela vai construindo o mosaico que é com peças que recolhe no caminho. Nada a escapa. Vê longe e fala sem vírgulas. É Apolo e é Eros. Hera em todas as estações. Ela tem um Amor, um anjo e várias canções. Vivendo, é Mulher. Tirando o sutiã, é militante. Amando, é amante. Escrevendo, é escritora. Ensinando, é professora. De todas as formas, há um desejo apenas de mostrar as pessoas um mundo de janelas abertas. Tem paredes pintadas, se vê todos os dias no espelho mas só chega há seu tempo.


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